' O meu amigo Helder levou ontem um medíocre da nossa professora e,quando chegou ao recreio põs-me uma mão no ombro e disse-me com cara de quem sabe muito bem do que é que está a falar:
-Sabes o que eu te digo, pá?As gajas são lixadas!
Fiquei-me com aquela.Se o Helder dizia é porque devia ser verdade.Eu é que andava distraído e nunca tinha pensado a fundo nesses assuntos relacionados com gajas.Mas pensando bem, o Helder tinha toda a razão.Verdade,verdadinha:'As fajas são lixadas.'
Bastava lembrar-me da Armandinha que, em vez de me dar os cromos das pastilhas elásticas, preferia deitá-los para o caixote do lixo só para me irritar.E da Célia, a quem pedi namoro e se desatou a rir.E da Joana que todos os dias me dizia que eu tinha cara de sapo engasgado.
O Helder tinha mesmo razão.Quando fui para casa, ia a repetir cá para comigo:'As gajas são lixadas!As gajas são mesmo lixadas!'Olhava para cada mulher que passava por mim na rua e pensava:'Tu és uma gaja lixada.'Vinha outra...'Tu também és uma gaja lixada!'
Cheguei a casa a repetir baixinho-As gajas são lixadas...-Que que vens a dizer, filho?-Perguntou-me a minha avó, e eu nada, nadinha...Pus-me a pensar.A minha avó não era lixada.E a minha mãe também não.Nem a minha madrinha.Muito menos a Rita das trancinhas do 3º esq. que não era mesmo nada lixada.
Mas não havia dúvidas.O Helder tinha toda a razão.As gajas são lixadas.As gajas são mesmo lixadas.O problema é que, entre as mulheres que eu conhecia, não tinha a sorte de conhecer nenhuma gaja.'
In, Diário inventado de um menino já crescido, Gailivro, 2007